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Boas contas

por MC, em 17.12.15

Os cabelos ondulados de um loiro improvável espraiam-se sobre o caderno. As unhas longas pintadas de púrpura com pequenas aplicações brilhantes tamborilam de impaciência no tampo da mesa.

“Então, como vai isso?”, pergunta-lhe a mulher com tranquilidade, magistralmente fingindo não ver o enfado evidente, tão incontornável como um elefante no meio da sala.

“Não consigo fazer”, declara com maus modos e descruza rapidamente as pernas demasiado longas. O movimento brusco faz cair o lápis, a aresta da velha mesa lascada lavra-lhe uma malha apressada nas meias de vidro pretas. O semblante cerra-se ainda mais, o nariz de bebé enruga-se de impaciência e contrariedade.

“Tem calma. Vamos lá raciocinar aqui as duas”, diz-lhe com um bonito sorriso persuasivo. “Então o João comprou um chocolate que lhe custou dois euros. Comprou também uma sandes de fiambre por um euro e cinquenta cêntimos. E depois gastou setenta e cinco cêntimos numa caixa de pastilhas. Quanto gastou o João no total, é o que queremos saber. Que tipo de conta precisamos então de fazer, hein?”, questionou, abrindo os olhos encorajadoramente.

As pestanas reviram-se-lhe impacientemente. “Sei lá. É de «vezes»?”

A respiração agita-se involuntariamente, mas a serenidade mantém-se. “Não, repara: ele gastou dois euros, depois um euro e cinquenta cêntimos e finalmente setenta e cinco cêntimos. Ora para sabermos quanto foi a despesa t-o-t-a-l, que conta precisamos de fazer?”

“Ok, temos de… errrrr… dividir”, arrisca sem convicção, o olhar arredio concentrado nas minúsculas cutículas esgaçadas à volta das unhas.

Engoliu com esforço o ar que lhe engulhava a garganta e tossiu levemente para ganhar tempo e calma. Enunciou pausadamente, como quem reza para enxotar o demónio: “Ora pensa lá bem: ele gastou dois euros – MAIS - um euro e cinquenta cêntimos – MAIS - setenta e cinco cêntimos. Então, para saber quanto é a primeira quantia, MAIS a segunda quantia, MAIS a terceira quantia, que tipo de conta precisamos de fazer?”

Fechou as mãos com força e encolheu-se involuntariamente à espera do imprevisível desfecho.

“Pronto, já sei: é uma conta de «mais» ”, anunciou com desdém. E antes que o júbilo do triunfo inundasse a sala, disparou, contrariadora: “mas não me apetece, vou fazer de «menos».”

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publicado às 20:13


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Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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